BEM-VINDOS AO BLOG!

Atualmente, sou... digamos... aprendiz de vegetariana. Pensar que, para satisfazer minha gula, tenho de ser conivente com o sacrifício de animais, fez-me, aos poucos, desistir de comê-los. Entretanto, não pratico o vegetarianismo "vegan", que descarta todo e qualquer alimento de procedência animal. Eu continuo ingerindo ovos e laticínios prazerosamente e sem culpa.
Às vezes, ainda tropeço e caio de boca numa torta de atum, numa tainha assada recheada com farofa ou num strogonoff de frango... Mas é raro...
Assim, quem pretende encontrar neste blog uma boa receita de rosbife, leitão à pururuca, carré de cordeiro, vaca atolada, escondidinho de carne-seca etc., perdoe-me, mas será uma busca infrutífera! Fora isso, sejam todos bem-vindos!







sábado, 23 de julho de 2011

ORAÇÃO DO MILHO

Hoje não estou postando uma receita culinária. Resolvi transcrever aqui um poema de Cora Coralina, uma das minhas preferidas no vasto mundo poético-literário em que me refugio quando estou longe do mundo das panelas. Somos seres holísticos: é preciso dar alimento ao corpo tanto quanto é preciso dar alimento à alma (embora alguns pratos sejam tão deliciosos que alimentam o corpo e a alma simultaneamente!).
Por trás da figura frágil e quase centenária dessa mulher habitava uma pessoa simples e sábia, sensível e forte. Virtudes adquiridas ao longo do tempo, lições aprendidas na aventura de viver. Transformadas em poesia pura, de primeira qualidade.

ORAÇÃO DO MILHO

Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada. Ponho folhas e haste e se me ajudares, Senhor, mesmo planta da acaso, solitária, dou espigas e devolvo em muitos grãos, o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo. E de mim,não se faz o pão alvo, universal.
O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre. Alimento dos rústicos e animais do jugo.
Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paiois.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizestes necessária e humilde.
Sou o milho.
(Cora Coralina).

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